Vocalista da Banda Terráquea, cantora ganha nova versão de uma de suas primeiras músicas pelas mãos de Lon Bové; lançamento marca fortalecimento da atuação da Rádio Terra como selo e plataforma para novos artistas
Janis Dominique gosta de misticismo. Muito. Antes mesmo de integrar a Banda Terráquea, a cantora baiana já havia batizado duas de suas primeiras músicas com nomes que entregavam essa relação: “Vênus” e “Lilith”. O que ela, provavelmente, não imaginava era que, alguns anos depois, justamente Lilith voltaria para encontrá-la em outro momento da vida – e com blues.
A música, lançada, originalmente, em 2021, acaba de ganhar uma nova roupagem concebida por Lon Bové, guitarrista e compositor norte-americano radicado na Bahia, fundador da Banda Terráquea e músico cujo álbum “M.O.T.H.” recebeu nove indicações ao Grammy. Bové escreveu uma nova harmonia para a composição e conduziu a canção para um território onde sua própria história musical encontra a de Janis: o blues.
A nova “Lilith” é também o primeiro movimento de uma estratégia que a Rádio Terra quer tornar cada vez mais visível. Além da atuação socioambiental, dos shows e da educação musical gratuita, a organização funciona como selo e produtora e pretende fortalecer sua frente de descoberta, desenvolvimento e projeção de novos artistas.
Janis é uma das histórias que ajudam a explicar por quê. Aos 29 anos, a cantora iniciou, profissionalmente, sua trajetória autoral em 2020, de forma independente. Hoje, reúne quatro músicas lançadas, entre trabalhos próprios e parcerias, além de videoclipes, apresentações em Salvador e uma carreira que se desdobra entre projetos autorais, backing vocal e pesquisas musicais que passam pelo jazz e pelo blues. Entre os trabalhos que desenvolve atualmente está, inclusive, um espetáculo em tributo a Etta James.
O encontro com a Terráquea aconteceu quando essa trajetória ainda estava começando. Por volta de 2022, Janis foi convidada pela cantora Angela Veloso para substituí-la em uma apresentação da banda. Chegou para cantar uma vez. Ficou.
“Foi amor à primeira vista. Eu tinha pouquíssimo tempo de carreira e não me sentia pronta para ocupar aquele lugar. Era uma banda muito mais complexa tecnicamente do que tudo que eu tinha vivido até então. Eu me lembro de pensar: uma banda desse nível aceitou que eu estivesse aqui. Para mim, era um sonho”, conta Janis.
Nos anos seguintes, com Angela dedicada a outros projetos, Janis passou a assumir de forma integral os vocais femininos da Terráquea. E o que começou como uma participação tornou-se parte decisiva de sua formação artística.
“A Terráquea é uma escola para mim. Eu aprendi e continuo aprendendo muito ali. São músicos que viraram meus amigos de vida e que também abriram caminhos para outros projetos. Eu cresci tecnicamente, profissionalmente e como artista”, afirma.
Essa convivência extrapolou o palco. Integrantes da banda passaram a participar de outros momentos da carreira da cantora, criando conexões que a levaram também a projetos no Carnaval e a novas experiências profissionais.
Com Lon, a relação ganhou ainda uma dimensão de mentoria artística. Foi ele quem ouviu “Lilith”, uma canção que Janis já havia colocado no mundo, e enxergou outra música possível dentro dela.
“Lon trouxe a ideia de uma nova roupagem para ‘Lilith’. Ele escreveu toda a harmonia e levou a música para o blues. Quando eu ouvi, foi muito maior do que uma mudança de arranjo. Deu uma profundidade que eu não estava esperando. Foi mágico”, diz Janis.
Para Bové, revisitar uma obra não significa apagar a identidade de quem a criou, mas encontrar possibilidades que talvez ainda estejam escondidas nela. “Janis já chegou com identidade, voz e uma maneira muito própria de estar no palco. O nosso trabalho nunca foi transformá-la em outra artista. É criar espaço para que ela descubra até onde pode levar aquilo que já é dela. Quando ouvi ‘Lilith’, ouvi blues ali. A música já tinha uma força própria; nós apenas abrimos outra porta para ela”, afirma.*
Da sala de aula para o selo
A história de Janis ajuda a revelar uma faceta da Rádio Terra que agora ganha maior protagonismo.
Criada por Lon Bové e ligada à Banda Terráquea, a organização mantém uma estrutura de educação musical gratuita, com aulas e oficinas de guitarra, violão, canto, percussão, bateria, piano, sopros e gaita, entre outras atividades. Professores e alunos, frequentemente, dividem os mesmos ambientes de criação e, em projetos presenciais, participantes das oficinas já chegaram a subir ao palco com músicos profissionais.
Agora, essa lógica de formação e troca passa a ganhar uma continuação mais clara: encontrar artistas, desenvolver trabalhos autorais, produzir e criar pontes para que essa música circule.
A Rádio Terra já atua como selo e produtora em trabalhos ligados à Terráquea, a Gabriel Bové e à própria Janis. O objetivo é fortalecer essa frente e transformar a experiência acumulada entre Brasil e Estados Unidos em uma plataforma capaz de revelar novas vozes.
“Durante muitos anos, construímos pontes entre músicos, gerações, Salvador e Estados Unidos. Faz sentido que essas pontes também sirvam para quem está chegando. Existe muito artista extraordinário aqui que não precisa que alguém invente sua identidade. Precisa de estrutura, experiência, oportunidade e portas abertas”, sublinha Bové.*
No caso de Janis, a porta aberta alguns anos atrás virou permanência. E talvez exista certa ironia mística no fato de que a música escolhida para simbolizar esse novo momento seja justamente “Lilith”, figura associada há séculos à independência, à insubmissão e à recusa em caber no lugar que lhe foi determinado.
Janis ri da coincidência, mas não foge dela: “eu sou muito ligada ao misticismo. ‘Vênus’, ‘Lilith’… isso aparece naturalmente no meu trabalho. E agora pegar justamente ‘Lilith’, uma música de outro momento da minha vida, e perceber que ela também cresceu comigo é muito simbólico. Parece que ela estava esperando a hora de voltar.”
Só que agora ela volta com blues. E com uma artista bem diferente daquela que a lançou cinco anos atrás.
Sobre Janis Dominique
Janis Dominique, 29 anos, é cantora e compositora baiana e integra os vocais da Banda Terráquea. Iniciou sua trajetória profissional autoral em 2020 e possui quatro músicas lançadas entre trabalhos solo e colaborações: “Vênus”, “Lilith”, “La Niña” e “Bateu Bê”. Além do repertório autoral, atua em projetos musicais, Carnaval e backing vocal e desenvolve um espetáculo dedicado à obra de Etta James.
Sobre a Rádio Terra
A Rádio Terra é uma organização sem fins lucrativos sediada em Salvador e ligada à Banda Terráquea, com atuação nas áreas de educação musical, cultura e consciência socioambiental. O projeto oferece, gratuitamente, aulas de diferentes instrumentos e canto, em português e inglês, e também atua como selo e produtora musical. A nova fase busca fortalecer essa frente de desenvolvimento e projeção de novos artistas.
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Fotos: Mateus Pereira / Várias Cenas
