Gamificação do trabalho no iFood expõe entregadores ao risco e agrava trânsito nas cidades

Economia Saúde

Modelo de promoções e metas cria ambiente de exploração com impactos sociais, urbanos e à saúde pública

📅 01/08/2025 – 05h00
✍️ Por William Cardoso


A busca por dinheiro rápido e a promessa de autonomia têm atraído milhares de brasileiros para o trabalho por aplicativos como o iFood. No entanto, sob o discurso de liberdade, entregadores vivem uma rotina exaustiva, perigosa e desamparada, marcada por metas abusivas, ausência de direitos e gamificação do trabalho.

A história de Ariany do Nascimento Ruiz, 20 anos, é emblemática. Neta de entregadores, entrou no iFood quando a filha ficou doente. Em um dia de temporal — justamente quando a plataforma oferece bônus — ela acelerou mais do que devia. “Lançou promoção, a gente fica igual doida, né?”, conta. O acidente resultou em três meses afastada das ruas e uma ajuda irrisória de R$ 200 do aplicativo. “Foi tenebroso.”

Trabalho ou jogo?

No iFood, os entregadores são levados a agir como se estivessem em um jogo: promoções relâmpago, metas agressivas e um sistema de pontuação que premia os mais engajados. Em dias de chuva ou datas especiais, como o Dia dos Namorados, os incentivos chegam a triplicar o valor por entrega, levando os motoboys ao limite.

Mensagens como “promo R$ 12 por rota completa” aparecem o tempo todo, até de madrugada. A matemática é simples: com promoções, quatro entregas em uma hora podem render até R$ 78 — sem o extra, o valor seria R$ 30.

O resultado? Entregadores avançam sinais, andam na contramão e sobem calçadas, priorizando velocidade ao invés da segurança. A plataforma, por sua vez, oferece alertas discretos como “tenha cuidado em dias de chuva”, escondidos sob mensagens motivacionais de ganho.

Desafios, punições e algoritmos

Além das promoções, o iFood oferece “desafios” que prometem bônus a quem atingir certas metas. Um dos exemplos é: “faça 20 entregas na semana e ganhe R$ 600”. Mas à medida que o entregador se aproxima do objetivo, as corridas se tornam mais difíceis, com rotas longas ou paradas múltiplas.

Se o entregador recusar entregas, seu “score” — que determina acesso a corridas melhores — cai. Após sete recusas seguidas, é penalizado com 15 minutos sem trabalhar. Recusar novamente após o gancho, dobra a punição.

O novo programa iFood Super criou as categorias “ouro” e “diamante”, com benefícios como bônus anual de até R$ 3 mil. Para isso, é preciso realizar ao menos 650 entregas em três meses.

Falta de estrutura e abandono

São Paulo, com 250 mil entregadores cadastrados no iFood, é um retrato do caos. Em toda a cidade, existem apenas dois pontos de apoio estruturados da plataforma: um no Tatuapé e outro em Moema. Uma tenda improvisada no hipermercado do Tucuruvi completa a lista.

A maioria dos entregadores, especialmente os chamados “nuvens” — que atuam de forma autônoma —, não tem acesso a locais para esquentar marmita, descansar ou recarregar o celular. Alguns shoppings, como o SP Market, sequer permitem que eles aguardem pedidos em suas dependências.

A resposta? Motoboys improvisam tendas com lonas em canteiros de avenidas, como relatou Bruno Melo Santos, 24 anos: “A gente que se esforçou para ter o mínimo de decência aqui. O iFood não ajudou em nada.”

Acidentes e descaso

O reflexo mais trágico da gamificação do trabalho são os acidentes. Em 2024, o SAMU atendeu 9.898 ocorrências com motos em São Paulo, média de uma a cada 53 minutos. Foram 483 mortes, aumento de 20% em relação a 2023. Só a rede municipal registrou 4.084 internações.

A médica Linamara Rizzo Battistella, da Rede Lucy Montoro, denuncia: “Esses jovens vivem sem nenhum mecanismo de segurança social. É devastador ver isso.” Ela também aponta a conivência da sociedade e o apoio indireto de grandes marcas, como as montadoras.

O preço da liberdade

Apesar dos riscos, muitos entregadores afirmam preferir essa rotina à rigidez do trabalho formal. Alegam que, mesmo com ganhos baixos — entre 1 e 3 salários-mínimos, segundo a Amobitec —, ainda têm mais controle sobre seu tempo.

Entretanto, como resume Lucas Rodrigues, ex-entregador: “Fiquei cinco meses parado depois de uma queda. Fico por conta própria. Não estava preparado para isso.”

Já Matheus Fonseca, 27, perdeu o movimento das pernas após um acidente durante uma entrega em 2022. Hoje, passa por tratamento de reabilitação: “O mundo cai. A gente não quer ficar preso em algum canto.”


Foto: William Cardoso / Metrópoles
Fontes: Amobitec, Samu, Rede Lucy Montoro, iFood, UFMG

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