Projeto idealizado pelo neurocirurgião Leonardo Avellar ganhou o engajamento do jovem Arthur Caribé Sena, hoje primeiro autor de publicação científica internacional sobre o tema
Em 2023, Arthur Caribé Sena havia acabado de chegar como estagiário ao Serviço de Neurocirurgia do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), em Salvador. Tinha pouca experiência com pesquisa médica e assistia a uma de suas primeiras discussões científicas no serviço quando ouviu falar de uma hipótese que parecia quase uma inversão da história recente da saúde brasileira: o vírus Zika, responsável por uma das maiores emergências sanitárias enfrentadas pelo país na década passada, vinha sendo investigado pela ciência por seu potencial de atacar células de determinados tumores cerebrais.
Arthur saiu daquela discussão querendo saber mais
Três anos depois, a hipótese se transformou em uma linha de pesquisa experimental sobre o potencial uso do Zika vírus contra o glioblastoma, um dos tumores malignos mais agressivos do sistema nervoso central. O projeto já passou pelo Comitê de Ética em Pesquisa, envolve pesquisadores e instituições parceiras e chegou à etapa de obtenção de amostras tumorais para investigação experimental.
No meio desse caminho, Arthur assumiu a frente de uma revisão sistemática e meta-análise sobre o tema, publicada em agosto de 2026 no Journal of NeuroVirology. O artigo reuniu as evidências pré-clínicas disponíveis sobre terapia oncolítica baseada no vírus Zika para glioblastoma e encontrou sinal estatisticamente significativo de aumento de sobrevida nos modelos experimentais analisados.
É importante a ressalva: isso ainda não significa que o Zika seja um tratamento disponível ou comprovadamente eficaz contra o glioblastoma em seres humanos. O que existe é uma hipótese científica sustentada por evidências pré-clínicas que justificam continuar investigando.
E é justamente essa investigação que a equipe pretende levar adiante.
Um convite feito depois da discussão
O ponto de partida foi o próprio Leonardo Avellar, chefe do Serviço e da Residência de Neurocirurgia do HGRS. Avellar já vinha desenvolvendo o projeto sobre Zika e glioblastoma e levou o tema para uma discussão científica com a equipe do serviço.
Arthur, recém-chegado, começou a fazer perguntas. Percebendo o interesse do estagiário, Avellar perguntou se ele gostaria de participar da pesquisa. Ele topou.
“Eu tinha acabado de entrar no serviço e uma das primeiras discussões de que participei foi sobre Zika e glioblastoma. Aquilo me chamou muito a atenção. Comecei a perguntar, a estudar, e percebi que era uma abordagem inovadora e, ao mesmo tempo, biologicamente plausível. Quando o Dr. Léo me convidou para participar do projeto, aceitei na hora”, lembra Arthur.
O convite se transformou em meses de estudo, reuniões e construção metodológica. Arthur, que até então tinha pouca experiência em pesquisa médica, passou a mergulhar no tema sob orientação de Avellar e em interlocução com pesquisadores parceiros.
“Dr. Léo foi muito presente desde o começo. Tivemos inúmeras reuniões no Roberto Santos, reuniões com o Cimatec, e ele chegou a me convidar para dar uma aula sobre o tema no próprio serviço. Em cerca de seis meses, estruturamos o projeto e o submetemos à Plataforma Brasil”, conta.
O projeto experimental recebeu aprovação ética e avançou para novas etapas. Desde então, a equipe vem trabalhando com amostras de gliomas de alto grau para investigar, em ambiente experimental, o potencial oncolítico do vírus.
De estagiário a primeiro autor
Para Leonardo Avellar, o que merece destaque é o que Arthur fez a partir do convite. O projeto era dele, mas encontrou no interno alguém disposto a abraçá-lo, estudá-lo e ajudar a transformá-lo em uma linha consistente de investigação.
“Eu estava desenvolvendo o projeto e convidei o Arthur para entrar. Ele comprou a ideia e fez algo que, para mim, é ainda mais importante: desenvolveu muito bem essa ideia. Ele foi atrás, estudou, cresceu junto com o projeto e assumiu responsabilidade científica sobre o trabalho. Pesquisa também é isso. Você pode apresentar uma boa pergunta a um aluno, mas é a capacidade dele de trabalhar sobre aquela pergunta que determina até onde ela pode chegar”, afirma Avellar.
Um dos resultados desse percurso veio em agosto deste ano. Arthur assina como primeiro autor o artigo “Systematic review and multilevel meta-analysis of preclinical survival outcomes of Zika virus–based oncolytic therapy in glioblastoma”, ao lado de Márcio Igor Santana, Vinícius Pinto Costa Rocha e Leonardo Miranda de Avellar.
A revisão analisou seis estudos pré-clínicos e encontrou resultado favorável à investigação da estratégia nos modelos experimentais avaliados, embora os próprios pesquisadores apontem diferenças importantes entre os estudos e questões que ainda precisam ser respondidas.
O trabalho chegou, também, ao ambiente dos congressos científicos, mas, para Arthur, a publicação não encerra a pesquisa. É quase o contrário.
“Essa publicação é um passo de uma grande estrada que estamos percorrendo desde 2023. Ela mostra que conhecemos o que a comunidade científica já produziu sobre Zika e glioblastoma e que existe uma base teórica robusta para continuar investigando. O nosso objetivo é avançar com muita responsabilidade pelas etapas experimentais e, se as evidências permitirem, chegar futuramente à pesquisa clínica”, afirma.
Por que o Zika?
A chamada terapia oncolítica investiga vírus capazes de atacar preferencialmente células tumorais e provocar respostas que contribuam para o combate ao câncer. O Zika passou a despertar interesse nesse campo pelas características biológicas demonstradas em estudos experimentais envolvendo células do sistema nervoso.
No glioblastoma, a busca por novas estratégias é especialmente relevante pela agressividade da doença e pelas limitações dos tratamentos atualmente disponíveis.
Por enquanto, porém, a pesquisa permanece no campo experimental. Antes de qualquer possibilidade de aplicação em pacientes, são necessárias etapas sucessivas para avaliar eficácia, segurança, dose, forma de administração e outros fatores.
É uma distância que Arthur conhece bem. Se em 2023 ele entrou no Roberto Santos como estagiário ouvindo falar daquela hipótese pela primeira vez, hoje é primeiro autor de uma publicação internacional sobre o assunto e participa diretamente da construção da pesquisa que o convite de Avellar colocou em seu caminho.
Para Avellar, existe aí outro resultado que não aparece nas tabelas do artigo. “Um serviço de formação precisa produzir bons especialistas, mas também precisa ensinar alguém a fazer perguntas. Arthur entrou com curiosidade e transformou essa curiosidade em trabalho científico. Quando um aluno começa a construir conhecimento em vez de apenas recebê-lo, a formação muda de nível”, destaca.
Arthur prefere olhar para o que ainda falta: “A pesquisa começou em 2023 e a publicação não é o ponto final. Nosso sonho é conseguir construir evidência suficiente para, no futuro, chegar a um ensaio clínico. Existe uma estrada inteira até lá.”
E ele pretende percorrê-la.
Sobre o estudo publicado
Título: Systematic review and multilevel meta-analysis of preclinical survival outcomes of Zika virus–based oncolytic therapy in glioblastoma
Publicação: Journal of NeuroVirology, 2026
Autores: Arthur Caribé Sena, Márcio Igor Santana, Vinícius Pinto Costa Rocha e Leonardo Miranda de Avellar
DOI: 10.1007/s13365-026-01340-8
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